Cidadania e Política

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de fevereiro de 2017


“A política é a arte do possível. Toda a vida é política”Cesare Pavese

Em 2001, foi surpreendido pelo meu amigo Manuel Adelino Cracel Viana quando quis saber da minha disponibilidade para integrar a lista do PSD à Assembleia Municipal, isto porque, até então, nunca tinha tido qualquer atividade partidária. Limitava-me a opinar em círculos de amigos sobre os mais diversos assuntos políticos, particularmente, política local.

Pedi algum tempo porque, para ser sincero, nunca me tinha passado pela cabeça entrar no chamado “mundo da política”.

Nesse período de reflexão, falei com amigos e familiares mais próximos que, quase unanimemente, me desaconselharam. Comungavam com Thomas Jeferson a mesma ideia de política: “uma praga tal que eu aconselho todos a não se meterem nela”.

Contrariando esses conselhos, aceitei o convite. Achei que se queria que, no mínimo, as minhas ideias sobre o futuro da minha terra fossem ouvidas, deveria fazê-lo no local próprio, isto é, nos órgãos políticos locais. Não poderia limitar-me a opinar ou criticar opções políticas e não tentar que, de algum modo, essas opiniões tivessem algum eco e alguma consequência.

Hoje, passados 16 anos, digo-o que em boa hora o fiz. E digo-o porque, neste período, quer como deputado municipal e como vereador, em cargos autárquicos, quer como membro da Comissão Política de Secção de Terras de Bouro e da Comissão Política Distrital de Braga do PSD, em cargos partidários, tive a oportunidade de debater, discutir e trabalhar com muita gente de diversos partidos onde, posso dizê-lo, encontrei muitas pessoas com uma enorme inteligência, conhecimentos, capacidade de trabalho, íntegras e com princípios com os quais me identifico.

Neste momento, imagino que tenha poucos leitores entusiasmados com este discurso elogioso a políticos. Não é um discurso popular. A imagem dos políticos, e da política em geral, não colhe muita simpatia junto da população, muito por culpa daqueles, diga-se em abono da verdade.

Perguntar-me-ão, então: mas não há políticos individualistas; corruptos; sem ética e sem escrúpulos? Obviamente que os há. Conheci gente sem ética, que apenas está na política por interesse pessoal, que não olha a meios para eliminar quem, eventualmente, lhe possa coartar a sua ambição de poder. Conheci gente que nunca se define politicamente, ficando sempre “a meio da ponte”, por calculismo, para poder estar sempre do lado do vencedor. Conheci gente que muda de convicções conforme os seus interesses. Conheci gente que, quando sente que podes ter ambições que colidam com as dela, transformam todas as tuas virtudes em defeitos. Na politica serás sempre a melhor pessoa do mundo desde que não tenhas qualquer ambição.

Conhecendo gente na política com estes valores não será, então, um contrassenso esta crónica?

Em definitivo, não, porque entendo que estas virtudes e estes defeitos não são inerentes aos políticos. São inerentes às pessoas. Os partidos e os órgãos representativos não são entidades abstratas, são compostos por pessoas. Cruzamo-nos, diariamente, com pessoas individualistas, pouco sérias, sem escrúpulos e sem ética nos mais diversos círculos da sociedade: no trabalho, nas diversas instituições, nas associações, nas empresas e até, por vezes, na família.

Esses defeitos são potenciados sempre que há disputa de poder. A diferença reside no grau de escrutínio publico e popular existente sobre a política, e consequentemente sobre quem exerce cargos púbicos, o que os torna muito mais expostos. Felizmente que assim é, porque é fundamental para a democracia que quem exerce esses cargos esteja sujeito a esse escrutínio.

Estamos em ano eleições autárquicas. Terras de Bouro vive um momento crucial para a definição do seu futuro. Um “apagão populacional” sem precedentes; um conjunto de desafios e problemas relacionados com o turismo e a agricultura; o problema da criação de emprego e da falta de investimento; a relação com o PNPG, entre muitos outras, serão questões que estarão, certamente, no centro do debate politico.

Ganha, neste contexto, ainda mais importância a existência de massa critica. Se é verdade que a democracia não se esgota nos partidos, não é menos verdade que estes são fundamentais e o alicerce da mesma. Torna-se, pois, fundamental conseguir trazer para o debate todos aqueles que tenham vontade, propostas e ideias para o futuro do concelho, sob pena de, tal como afirmava Platão há mais de 2400 anos, “o preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”.

António Cunha

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