A tempestade perfeita – Parte II

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de março de 2017


Iniciei a minha colaboração neste jornal há, precisamente, um ano. Nessa crónica, sob o título “A tempestade perfeita” –  disponível em https://goo.gl/iLM7a2 – abordei o problema da desertificação do interior e, em particular, no concelho de Terras de Bouro.  Não foi casual a escolha deste tema. Foi-o porque considerava ser esse o maior desafio do nosso concelho.

Ao longo deste ano, em diversas crónicas e em intervenções nas reuniões do executivo, não só fiz eco desta preocupação como também discordei, em diversos momentos, do caminho politico seguido que, no me entender, não ia no sentido de alterar este “apagão demográfico”, como o designou o Sr. Presidente, Dr. Joaquim Cracel, em entrevista ao Diário do Minho (10.11.2016), referindo-se ao facto do concelho ter, neste momento, apenas 6655 habitantes, após ter perdido cerca de 600 habitantes, desde os censos de 2011.

Tendo consciência desse problema, na última Assembleia Municipal, o Dr. Joaquim Cracel, anunciou a sua intenção de não se recandidatar a novo mandato, sustentando a sua decisão, para além de motivos pessoais, no facto de não vislumbrar soluções. Assim, na sua declaração, publicada neste jornal, diz:

“Se em oito anos não consegui nem vislumbro soluções para resolver o principal problema do nosso Município, que é a perda contínua de população, não seria nos próximos quatro anos que resolveria tal problema. Parafraseando o saudoso Mário Soares, ‘Peço desculpa, mas retiro-me.’”

Certamente que o executivo tomou as decisões politicas que, no seu entendimento, achavam ser as melhores para enfrentar este problema. Não tenho dúvidas disso. A verdade é que não resultaram.

Tal como escrevi há um ano na referida crónica, temos de ter consciência que fazer face a este problema não se afigura uma tarefa fácil. Sabemos, também, que não há soluções mágicas, nem resultados imediatistas. Seriamos demagógicos se afirmássemos o contrário.

Temos assistido, desde a década de 60 do século passado, ao desaparecimento continuado do mundo rural, sustentado numa agricultura de subsistência, onde a escola e os serviços de saúde eram um privilégio de poucos e os serviços de apoio sociais inexistentes.

Com o intuito de procurar melhores condições de vida assiste-se, desde então, a um êxodo das aldeias para as cidades, algumas das quais inclusive, noutros países. Se comparamos Portugal de 1974 com o de hoje, observamos o período de maior desenvolvimento da nossa história a todos os níveis: na educação, na saúde, no desenvolvimento e apoio social e nas condições de vida. A diferença é abissal. É um facto incontornável. Só a título de exemplo, em 1970, 31% das mulheres e 19,7% dos homens eram analfabetos!

Hoje, há uma geração muito mais qualificada, realidade esta para a qual os municípios e a economia não conseguem dar resposta ajustada ao nível da criação de emprego. Acresce a tudo isto, o facto de em qualquer atividade, e devido à evolução tecnológica, ser necessária cada vez menos mão-de-obra.

Neste contexto, deixaria aqui um apelo para que na próxima campanha eleitoral, mais do que discutir nomes, se discutissem soluções.

Parece-me fundamental que o futuro do concelho seja discutido numa perspetiva de médio/longo prazo, com uma politica orientada para a resolução de questões centrais tais como: Minorar o efeito da sazonalidade no turismo; discutir de que modo se pode diminuir a despesa corrente do município por forma a aumentar o investimento; criar melhores condições para atrair investimento e promover a economia local e debater de que modo se podem criar condições que tornem mais atrativo viver em Terras de Bouro.

E, se me permitem, vou terminar esta crónica repetindo o último parágrafo da que escrevi há um ano, pois parece-me ainda mais atual.

Numa citação que alguns atribuem a Einstein, diz-se: “insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”. Isto para dizer que é tempo de pensar o Concelho para além da intenção de vencer, apenas, as próximas eleições; pensar em fazer diferente; pensar em inovar. Caso contrário, poderá, num futuro próximo, nem sequer haver eleições para ganhar, pois deixará de haver, por morte prematura, um concelho.

António Cunha

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