Risco e ética

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de abril de 2017


Por estes dias, tornou-se incontornável, sempre que se fala de política local, abordar-se a decisão do Dr. Joaquim Cracel em não se recandidatar a um terceiro mandato autárquico. Apesar de ter demonstrado a minha discordância com a política seguida nos últimos anos, quer nas reuniões do executivo, quer através de várias crónicas escritas neste jornal, estou completamente em desacordo com aqueles que dizem que, ao tomar esta decisão, optou por uma saída pela “porta pequena”.

Sempre defendi o limite de mandatos, porque entendo que o exercício de um cargo político deve ser visto como um serviço datado no tempo, em função do bem comum, e não como uma profissão. Ao longo do tempo, em diferentes eleições autárquicas, assistimos a pessoas que, demonstrando não ter quaisquer princípios éticos, fazem o que for necessário para conseguirem ou se perpetuarem nos cargos, tendo como único objetivo os seus interesses pessoais.

Assim, a atitude do Dr. Joaquim Cracel, não o faz sair pela porta pequena, muito pelo contrário. Sai com a maior dignidade porque, se assim o entendesse, seria o mais forte candidato a vencer, novamente, as eleições. Decidiu não o fazer. Assumiu que a política seguida não resolveu os problemas do concelho e abriu as portas para que outros apresentassem soluções. Abandona o cargo de livre vontade, por sua iniciativa e vai exercer a sua profissão. Para mim, isto é sair pela “porta grande”. Continuarei a ser um crítico das políticas seguidas, mas ganhou o meu respeito político.

Dito isto, seria importante que, doravante, o debate se centrasse nas causas do insucesso, no meu entendimento, das políticas seguidas nos últimos anos. Em julho de 2016, escrevi aqui, que o que devia estar em causa, nas próximas eleições autárquicas, seria uma escolha entre duas alternativas “…por um lado, uma visão mais imediata, de curto prazo, mais individualizada e casuística, e, por outro lado, uma visão de médio/longo prazo, dando prioridade ao investimento em infraestruturas; em equipamentos que melhorem a qualidade de vida dos habitantes e investimentos que gerem valor, potenciando o desenvolvimento da economia local”. Tenho, no entanto, as maiores dúvidas que tal debate vá acontecer.

Em democracia, o objetivo primeiro é ganhar eleições. É natural que assim seja, até porque sem as ganhar nenhum programa pode ser implementado.  Assim, embora seja quase consensual que o concelho tem um atraso estrutural em relação aos concelhos vizinhos, que está num processo acelerado de desertificação tendo enormes potencialidade e desafios que implicam uma abordagem política diferente, a verdade é que poucos validam esta visão através do voto. Esta última abordagem acarreta riscos e é, eleitoralmente, pouco eficaz. Recordo, a este propósito que, há 4 anos, o partido vencedor apresentou-se a eleições sem ter, tão-pouco,  um programa eleitoral, e não foi por isso que deixou de vencer as eleições.

Temo que os candidatos, tendo consciência disso ou não tendo qualquer ideia para o concelho, insistam numa política de promessa fácil e imediatista em detrimento de uma ideia de médio prazo e interesse coletivo. Parece-me, até, que quem ousar pensar de forma diferente, ousar enfrentar clientelismos e não fizer promessas fáceis, terá mais dificuldade em ganhar eleições. No entanto, defendo que quem tem medo de perder eleições não as merece ganhar.

Quem ganhar as eleições seguindo o caminho mais fácil, chegará ao poder muito condicionado na sua ação, coartado pela necessidade do cumprimento das promessas e na manutenção do status quo vigente, que lhe permita já pensar em ganhar as eleições seguintes, transformando-se, assim, num mero gestor da atividade diária e distribuidor de subsídios.  Deste modo, fará pouca diferença a composição do executivo, porque a sua ação estará francamente limitada. O concelho continuará adiado, continuará a perder atratividade e competitividade para a maioria dos concelhos vizinhos, a desertificação continuará o seu percurso inexorável e assim, daqui a quatro anos, estaremos a falar, novamente, dos mesmos temas, porque nada mudará.

Como só sei estar desta forma na política, valorizarei sempre os candidatos que estejam dispostos a correr riscos, apresentando as suas propostas tendo apenas em consideração o futuro do concelho e não apenas pensando na sua eleição, porque como disse, um dia, Sá Carneiro: “Política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha”.

António Cunha

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