Silêncios ensurdecedores

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de maio de 2017


As Assembleias Municipais são o local de debate político por excelência, onde se devem enunciar problemas, criticar e/ou elogiar opções e apresentar propostas. Assim, ao longo dos últimos oito anos, habituamo-nos a assistir, por parte de alguns elementos da bancada do Partido Socialista (PS), a uma defesa intransigente das opções tomadas, bem como do trabalho do executivo, criticando sempre quem ousasse ter opiniões diferentes e recorrendo até, por vezes, a uma linguagem um pouco acintosa e num tom, nem sempre, com a maior elevação. Formas de intervir que compreendo, no âmbito do debate politico, mas com quais não me identifico. Felizmente, essas situações foram uma exceção nas assembleias municipais que, regra geral, decorrem num ambiente de cordialidade e sã convivência política. Dito isto, quero sublinhar que prefiro sempre aqueles que expressam a sua opinião, mesmo discordando do conteúdo e/ou da forma, àqueles que se mantêm em silêncio. Estar na política implica, no meu entendimento, ter uma voz ativa – uma das razões pelas quais mantenho esta crónica neste jornal – e parece-me que o silêncio nem sempre se deve à ausência de opinião servindo, isso sim, para evitar conflitos políticos pois, como dizia Martin Luther King: “para ter inimigos, não precisa declarar guerras, apenas diga o que pensa.” Assim, e mesmo correndo o risco de arranjar inimigos políticos, enquanto estiver na política ativa, continuarei a dizer o que penso.

No passado dia 21 de abril, realizou-se a Assembleia Municipal tendo na sua ordem de trabalhos, entre outros pontos, a “Análise e votação dos Documentos de Prestação de Contas relativos a 2016”. Estava curioso quanto à discussão deste ponto, dado que se tratava da última apresentação de contas deste executivo.

Estes documentos de prestação de contas nada traziam de novo em relação aos anos anteriores. Na verdade, evidenciavam apenas a continuidade e as consequências das opções políticas deste executivo, que os vereadores da oposição sempre criticaram e, a quem, no nosso entendimento, a realidade, veio a dar razão.

Recordo-me que, quando o executivo era liderado pelo Partido Social Democrata (PSD), enquanto deputado municipal ouvi, repetidamente, críticas que iam desde falta de investimento; perda de população; problemas da falta de emprego até à forma como era comemorado o 25 de abril. Se formos sérios na análise politica, com o PS no poder, nenhum desses problemas foi minimizado, muito pelo contrário, mas as críticas de outrora transformaram-se num discurso de desculpabilização, escudando-se, ou na “crise”, ou na herança do executivo anterior. Trouxe aqui as comemorações do 25 de abril, apenas como exemplo paradigmático desta mudança de discurso: Quando o executivo era PSD criticava-se porque as comemorações não tinham a “dignidade” merecida. Agora, que não há qualquer evento evocativo da data, não se ouve uma única palavra da bancada do PS, sobre o assunto.

Neste contexto, seria expetável que a bancada do PS fizesse um balanço destes últimos quatro anos, ou mesmo dos últimos oito, em que o PS esteve no poder, mais ainda, depois do Dr. Joaquim Cracel ter anunciado a intenção de não se recandidatar. Estranhamente – ou talvez não – optou pelo silêncio, não assinalando tão-pouco, num primeiro momento, o mérito do executivo na abertura da agência da CCAM na vila do Gerês, esquecimento esse que indignou o Sr. Presidente que fez questão de sublinhar essa injustiça.

Não posso deixar de fazer uma leitura política deste silêncio. Sempre me pareceu que o “casamento político” entre o Dr. Joaquim Cracel e o PS foi um casamento por conveniência. O Dr. Joaquim Cracel, outrora militante do PSD, sempre me pareceu “pouco confortável” na área política do PS, mas também foi a minha perceção, ao longo dos tempos, que havia uma parte do PS de Terras de Bouro que não se revia na política seguida. Houve apenas, em determinado momento político, um interesse comum para chegar ao poder. Mas, como todos os casamentos por conveniência, este tende a terminar mal. O tempo dirá se minha perceção está correta ou não mas, analisando este silêncio ensurdecedor, o casamento terminou e não creio que o Dr. Joaquim Cracel faça algo para que a autarquia se mantenha na esfera do PS, antes pelo contrário. Parece-me que este casamento chegará ao fim com o desentendimento entre a família socialista, sem que haja um herdeiro legítimo e consensual da herança política destes últimos oito anos de governação. Aguardemos.

António Cunha

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s