Sentimento de dever cumprido

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de junho de 2017


Quase a terminar o mandato de vereador, e tendo tomado a decisão de não me candidatar a qualquer órgão autárquico nas próximas eleições, permitam-me a veleidade de  fazer um balanço e o historial destes últimos quatro anos.

Aceitei, em 2013, ser o número dois da lista à Câmara Municipal pela coligação PSD/CDS, “Juntos por Terras de Bouro”, num contexto político adverso e com consciência de que vencer essas eleições seria um cenário pouco provável. Essa dificuldade advinha, não da qualidade do trabalho realizado pelo executivo do Partido Socialista (PS), mas porque tinha havido uma mudança politica em 2009 onde, primeira vez, o PS tinha vencido as eleições autárquicas no nosso concelho. Todos sabemos que reconquistar um município, após o primeiro mandato, implica sempre uma dificuldade acrescida, pois as justificações para a falta de resultados e de investimentos são usualmente remetidas para o executivo anterior e para a falta de tempo para concretizar projetos.

No entanto, era para mim evidente a necessidade de inverter o rumo político e, nesse sentido, aceitei integrar uma equipa que apresentasse um projeto alternativo. Com o contributo de um elevado número de pessoas, elaboramos um programa eleitoral com o qual nos apresentamos a votos. O resultado das eleições, como é sabido, reconduziu o PS para mais um mandato e, em democracia, a decisão do povo é soberana. Fui, no entanto, eleito vereador, conjuntamente com o Dr. António Afonso e, consequentemente, incumbidos de representar aqueles que não se reviam no caminho seguido pelo executivo socialista.

Permitam-me que faça, aqui um parêntesis, para enaltecer qualidades humanas e políticas de quem acompanhou ao longo deste período: o Dr. António Afonso. Uma pessoa séria, competente, com uma enorme capacidade de trabalho, coerente e conhecedora do concelho como poucos. Foi um enorme prazer ter trabalho com ele.

Estando na oposição, em minoria, nenhuma decisão poderia ser condicionada pelo nosso sentido de voto, o que não nos impediu, no entanto, de fazer, sempre, uma oposição séria – como aliás o Dr. Joaquim Cracel reconheceu em entrevista a um jornal – sem quaisquer calculismos políticos, apoiando todas as medidas que entendemos como positivas, nunca cedendo a uma lógica demagógica e populista, tendo sempre em consideração as dificuldades e os condicionalismos de um município como Terras de Bouro.

Nunca seguimos o caminho da crítica gratuita, até porque, entendemos que essa forma de fazer política pode causar enormes prejuízos ao concelho. Recordo tempos em que colocar em causa todos os projetos, só porque vinham do executivo PSD, fez com que o concelho perdesse milhões de euros em financiamentos da União Europeia. A título de exemplo, vejam-se os projetos do Parque das Gordairas, em Moimenta, e o Naturparque, em Vilarinho das Furnas.

Anualmente, analisando os documentos de prestação de contas, facilmente se percebe que a política deste executivo se limita, no essencial, à gestão corrente, sem qualquer investimento relevante e estrutural e sem que se vislumbre uma visão de futuro. Estas preocupações, nomeadamente a necessidade de reduzir a despesa corrente e aumentar o investimento, criando condições para captar investimento privado que potencie a criação de emprego e inverta a perda contínua de população, estão elencadas nas diversas declarações de voto. A este propósito escrevi, neste jornal, em julho de 2016, uma crónica com o título “Caminhos alternativos”, disponível em https://goo.gl/uBSxPA.

A linha politica seguida pelo PS é respeitável, mas com a qual não concordo e, nesse sentido, nunca me coibi de criticar tudo aquilo com que não estava de acordo, quer nas reuniões do executivo, quer através das crónicas neste jornal, mesmo quando sabia que essas opiniões não eram politicamente maioritárias. Alertei e apresentei sugestões para os mais diversos problemas e preocupações dos terrabourenses, quer em reuniões do executivo, quer em reuniões do Conselho Municipal de Turismo; colaborei sempre que solicitado pelo executivo. Tudo isto é facilmente verificável pelas atas das reuniões, disponibilizadas no site do município.

É justo, também, sublinhar a excelente relação mantida com todos os elementos do executivo, a qual permitiu que apesar de algumas discussões mais acaloradas, próprias do debate politico, este se realizasse dentro de um ambiente cordial e de respeito mútuo. Estes quatros anos em que estivemos em campos políticos opostos, não beliscaram, minimamente, a nossa longa amizade.

Em síntese, pese embora todas as discordâncias com o executivo, orientei sempre a minha ação neste cargo, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos terrabourenses, mantendo sempre os princípios éticos e de educação que nunca me permitiriam fazer ataques pessoais, nem de caráter, valorizando o essencial e não, pequenas questiúnculas pessoais que nada acrescentam à vida das populações.

Atendendo ao exposto, permitam-me a veleidade de dizer, passe a imodéstia, que termino este mandato com o sentimento de dever cumprido.

António Cunha

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s