Lágrimas de crocodilo

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de julho de 2017


Por estes dias, os incêndios florestais causaram uma tragédia sem precedentes. Sessenta e quatro mortos, mais de 200 feridos, 200 habitações destruídas e cerca de 50 mil hectares de floresta ardida. O país, consternado, assistiu a uma cobertura mediática exaustiva: reportagens, entrevistas, drones, bem como inúmeros “especialistas” em estúdio. Mais do que a dimensão da tragédia, o Portugal urbano ficou surpreendido com a existência de um mundo rural que desconhecia ou ignorava.

Não sendo especialista em ordenamento do território ou combate a incêndios, acredito no que já foi escrito, há muito anos, por pessoas como o arquiteto paisagista, Gonçalo Ribeiro Telles, ou o biólogo, Jorge Paiva: o (des)ordenamento do território é algo que demora décadas e isso é responsabilidade do poder central e local. Também por isso, o respeito pelas vítimas, exigiria, por parte dos (ir)responsáveis, neste momento, apenas, silêncio.

Sobre o combate não tenho a veleidade de opinar sobre o que correu mal. Sei que SIRESP’s, KAMOV’s, Canadairs e outros meios associados ao combate têm custado centenas de milhões de euros, os quais nunca existem quando se trata de prevenção.

Entretanto, a Assembleia da República reunia de urgência para aprovar legislação sobre o ordenamento da floresta. Mas, o que mais existe é legislação que “obriga” os proprietários a limpar as suas matas. Acontece que a esmagadora maioria são pequenas propriedades de idosos com pouca capacidade de trabalho e com reformas que, muitas vezes, não chegam para pagar os medicamentos. Para resolver estas situações, especialistas advogam a posse administrativa dos terrenos para a tutela do estado. Em tese, até pode fazer sentido, mas o Estado a que se referem, é o mesmo que tem o seu único Parque Nacional ao abandono; que deixa arder, anualmente, zonas de elevado interesse ambiental; que terminou com os Guardas Florestais e deixou as suas casas ao abandono; que, após os enormes incêndios de 2010, no Gerês, nada fez para a reflorestação e prevenção de catástrofes semelhantes num futuro próximo; e que nem sequer consegue limpar as suas matas e estradas. Pelos exemplos transcritos, acredito que não será também uma solução viável.

A verdade é que o problema tem, a montante, uma continuada desumanização do mundo rural, que só será possível de inverter se as suas populações tiverem rendimentos que lhe permitam ter uma vida digna. Seria bom que o poder político, central e local, assumisse que está na disposição de fazer uma alteração de políticas de investimentos – que não de custos – ou que aceita, em poucos anos, a desertificação de grande parte do seu território. Não sendo um problema de fácil resolução, é necessário que se aposte numa politica de médio prazo, em contraponto com uma politica imediatista e eleitoralista, apostando na captação de investimento e emprego, alicerçada na aposta nos recursos endógenos.

A fotografia tem a capacidade de condensar uma história. Nesta tragédia, houve excelentes trabalhos de fotojornalismo. Houve fotografias que nos disseram mais do que horas de reportagens televisivas ou opiniões de peritos. Houve registos de olhares que nos diziam tudo. Naqueles olhares podia sentir-se a dor – uma dor contida de gente habituada a sofrer -, a coragem e o sofrimento. Numa imagem podia observar-se um mundo rural envelhecido, pobre, isolado, abandonado, e entregue à sua sorte. Numa imagem podia sentir-se o desespero desta gente que sempre pediu tão pouco e recebeu quase nada.

Como seria bom que os responsáveis conseguissem “ver” e não olhar apenas para aquelas fotografias e pensassem que, dentro de dias, aquelas aldeias voltarão, novamente, ao esquecimento, pois estas pessoas só têm voz na tragédia.

Pelo respeito que elas devem merecer, deveria haver coragem para, efetivamente, implementar políticas de valorização do mundo rural ou numa próxima tragédia, dispensarão lamentos e lágrimas, pois parecerão sempre “lágrimas de crocodilo.”

António Cunha

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s