Tempo de coragem

Crónica publicada no jornal “O Amarense” de agosto de 2017


A decisão, inesperada, do Dr. Joaquim Cracel não se recandidatar a novo mandato veio baralhar as expetativas e os planos dos partidos a nível local. Com a exceção da CDU, os restantes partidos políticos entraram em período de decisões difíceis, tendo criado roturas que perdurarão para lá destas eleições.

Desde logo, o PSD que insistiu em apresentar um candidato aprovado, por maioria, na comissão politica de secção e no plenário, sabendo que esse candidato não seria aprovado na Comissão Política Distrital. Não sendo possível chegar-se a um consenso, atingiu-se um ponto de rutura e alguns membros da comissão politica concelhia decidiram promover, e até integrar, uma lista independente. Esta situação, obviamente, fragilizou o partido e será um trabalho árduo a sua reunificação após estas eleições.

O Partido Socialista não estava precavido para qualquer cenário alternativo. Como se tal não bastasse, vê dois dos seus elementos mais preponderantes das últimas eleições, nomeadamente, o terceiro e o quarto das suas listas à câmara, aceitarem integrar a candidatura do PSD. Acresce a isto o facto de, apesar de nunca o ter revelado publicamente, ser minha convicção que o atual presidente apoia a candidatura do Manuel Tibo (PSD). Neste cenário, nem o CDS saiu incólume. O processo de apoio à candidatura independente não foi pacífico, tendo o presidente da concelhia mostrado a sua discordância e dissociando-se da decisão tomada.

É, pois, neste conturbado cenário que iremos entrar na campanha eleitoral e, neste contexto, a remeter para segundo plano a discussão sobre o futuro do concelho. Discute-se o acessório em detrimento do essencial.

Num concelho, que me recorde, que não teve um único presidente eleito que habitasse em Terras de Bouro, de repente, passou a ser importante a freguesia onde moram os candidatos. Como se a competência para exercer um cargo dependesse do seu local de nascimento ou morada. Como se esse fator pudesse ser decisivo nas opções tomadas. Nenhum executivo irá privilegiar ou prejudicar qualquer um dos vales, Cávado ou Homem, porque quererá ser reeleito daqui a 4 anos e, ao fazê-lo, estaria a cometer suicídio político.

Passou, também, a ser tema de debate, a mudança de partido de dois elementos do PS que integram, agora, as listas do PSD. É legitimo este debate, eu próprio já o tive em diversos fóruns políticos, e até já escrevi aqui neste jornal, em abril último, uma crónica sobre o tema, mas não podemos ter memória curta ou seletiva. Recordo que o candidato do partido socialista, Dr. Luís Teixeira, já foi candidato pelo PS em 1997, 2009 e 2013 e pelo PSD em 2001 e 2005; e, o agora candidato independente, Dr. Paulo Sousa, já integrou ou encabeçou listas à Câmara Municipal pelo PS, em 2009 e pelo MPT, em 2013, e só não é candidato pelo PSD pelos motivos já referenciados.

Eu sei que estamos em campanha eleitoral e que é normal este tipo de debate e o uso desta argumentação. Faz parte do jogo político, mas era importante, que a discussão fosse muito para além desta superficialidade. Certamente, irão surgir programas eleitorais com muitas ideias e propostas, mas é minha convicção que existem princípios básicos que deviam orientar a elaboração de qualquer programa.

Desde logo, considero absolutamente prioritário que haja uma gestão rigorosa dos bens públicos que resulte numa diminuição dos custos operacionais e com pessoal. Venho alertando para isto há muitos anos. Só reduzindo a despesa corrente se libertará verbas para investimento. Não é sustentável a continuação das promoções e abertura de lugares para o quadro de pessoal, não em função das necessidades do Município, mas como forma de pagamento de favores políticos ou, simplesmente, nas expectativas dos funcionários. Com esta política chegamos a um quadro de pessoal completamente dissociado das necessidades reais do Município e com custos que estão a hipotecar o futuro de Terras de Bouro. Esta não é, apenas, uma opinião meramente pessoal. Ao consultar o Anuário Financeiro dos Municípios de 2016, podemos verificar que o concelho de Terras de Bouro está em 26.º lugar, entre 308 municípios, no que diz respeito ao peso da despesa com pessoal nas despesas totais, com 41,7%.

Depois, gostaria que o próximo executivo, mais do que prometer novos investimentos, tivesse como prioridade, a curto prazo, recuperar, preservar, divulgar e promover o património cultural e natural existente, muito dele vítima de incúria e abandono. É este património que sustenta umas das principais atividades económicas do concelho: o turismo.

Finalmente, uma palavra-chave deve orientar o próximo executivo: coragem. Coragem para fazer o que for mais importante e necessário para o concelho, mesmo que, por vezes, isso possa ter custos políticos. Governar é decidir. Dizia o filósofo Aristóteles que “A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.”

É, pois, tempo de ter coragem.

António Cunha

 

 

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